Falar Verdade a Mentir

Cá estou... caminhando
dando uma pequena volta depois do jantar, depois de um dia vital
Há pouco, chegado a casa, pousando a bicicleta, a minha mãe dissera me, olhando de olhos arregalados para mim: " Grande o dia grande a romaria, ah! "
E eu, cansado, mas armando-me, dissera-lhe: - Sim, têm de ser!
mas fiquei a pensar naquela expressão alegre: E não é que é verdade!? Sim, à parte de eu não gostar de romarias, e vivo eu em Viana do Castelo, há dias que são como vidas, há meses que são como vidas, anos, temporadas, que são como vidas, e assim deve ser, várias vidas, várias pessoas, dentro de uma mesma vida, a vida activa, com sentido, com mudança,
Vida essa de quem? do Todo
Hoje, aquando de uma pacífica mas dinâmica conversa com um amigo, que nem sempre fora pacífica aqui deste lado, mas pacífica no aparente, porque a educação, o medo, assim o exige, cresci um bocadinho, deu-se mais uma dessas tais mudanças: descobri que sou mentiroso, que me minto a mim próprio e aos outros, que me custa viver com a verdade nua e crua, e viver com a verdade é realização... mas não julguem que sou o único; quantos de nós não fazemos o mesmo? Somos ora manipuladores, ora brandos para não encarar a realidade, ora inteligentes para fugir às verdades mais difíceis do nosso ser, e a reflexão sobre este mesmo facto catapultara-me para o 6º ou 7º ano da escola básica, onde lera um livro chamado: " Falar verdade a mentir", de Almeida Garrett. Quando li a história de um jovem mentiroso compulsivo que mentia sem parar, já na altura, novinho, olhando ao meu redor para ver se não estava ninguém a ver-me, pensara, envergonhado e chocado:
- eu sou assim!!!
Sim, é claro que esta constatação varreu-se-me com o passar dos dias, ou eu a varri para debaixo do tapete, mas o facto de ter acontecido mostra que a consciência já estava lá, bem corajosa, bem desperta
Hoje em dia sou parcial objecto da mudança, e vou descobrindo estes mesmo factos que outrora quis esconder, fugir de, e isso acaba por ser mágico, porque a mudança alegra-me, pelo menos a aparente, pois sinto que estou a fazer as coisas bem, que as coisas vão para melhor de facto
Nos mentimos-nos todos muito, e a mentira causa desigualdade e divisão nas relações, sejam elas quais forem, seja connosco próprios, seja com os outros, e toda a nossa educação é alicerçada numa mentira, num fingimento: fingir que somos aquilo que não somos
e digo-vos nesse sentido que isso, mais tarde ou mais cedo, para o bem, claro, vai ruir Reparem na imagem que tentamos passar de nós, no não querer dar a parte fraca, no fingir ser-se forte, nos medos, tudo mentiras, mentir, mentir, mentir, por medos, por manipulação, por ideias e imagens concebidas de um futuro imaginário que nunca se irá realizar, mentir, mentir, mentir, mas de tanto mentir, chegará o dia em que tudo isso vai ruir, e, afinal, é tão mais fácil viver na verdade, verdade, verdade, verdade, podem começar desde já, porque a verdade é o que nós somos, é sentirmos-nos em nós, em justo equilíbrio com a natureza e nossos semelhantes
Reflictam: serei eu de verdade como essa personagem de Almeida Garrett? Estarei eu a mentir-me a todo o tempo, a fugir, a lutar? Baixem os braços, olhem, tenham coragem, esse é o primeiro passo
E que tantas vezes eu me vejo falando verdade a mentir, talvez até neste texto, dizendo aparentes realidades mas mentindo, manipulando, escondendo devido à educação aquilo que eu de facto queria dizer, o expor o meu coração, verdade maior
Hoje sei me lobo manso, não mais disfarçado de cordeiro, mas cordeiro no interior, cada vez mais perto do verdadeiro pastor
Ou não? Parece-me que agora não minto